segunda-feira, 6 de junho de 2011

A VOZ SELVAGEM DA TERRA (*)

Nossa palavra é como as estrelas
- elas não empalidecem.
Comprar ou vender o céu,
o calor da terra ?
Não somos donos da pureza do ar
ou do resplendor da água...
Cada torrão desta terra é sagrado,
cada folha reluzente de pinheiro,
cada praia arenosa,
cada véu de neblina na floresta escura,
cada clareira e inseto a zumbir
são sagrados na consciência do nosso povo.
A seiva que circula nas árvores
carrega consigo as recordações do homem.
Somos parte da terra e ela é parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs.
O cavalo, o cervo, a grande águia
- são nossos irmãos.
Os sumos das campinas,
o calor que emana do corpo de um animal
e o homem,
todos pertencem à mesma família.
Esta água brilhante que corre nos rios e regatos
não é apenas água
mas o sangue de nossos ancestrais.
Cada reflexo espectral
nas águas límpidas dos lagos
conta os eventos e as recordações da vida
- o rumorejar da água
é a voz do pai de meu pai.


Sabemos que o homem branco
trata sua mãe - a terra
e seu irmão - o céu
como coisas que podem ser compradas,
saqueadas, vendidas como ovelha
ou miçanga cintilante...
Sua voracidade arruinará a terra,
deixando para trás apenas um deserto.


Nossas vidas são diferentes :
a vista de suas cidades
causa tormento aos nossos olhos,
talvez porque somos selvagens
que de nada entendem.
Não há sequer um lugar calmo
nas suas cidades.
Não há um lugar onde se possa ouvir
o desabrochar da folhagem na primavera
ou o tinir das asas de um inseto
(talvez assim seja
porque somos selvagens
que nada compreendem).
Todas as criaturas respiram em comum
- os animais, as árvores, o homem -
e o homem branco parece não perceber
o ar que respira,
como um moribundo em prolongada agonia,
ele é insensível ao ar fétido.


A terra é nossa mãe
- tudo quanto fere a terra
fere os filhos da terra.
De uma coisa sabemos :
a terra não pertence ao homem,
é o homem que pertence à terra.


Com que sonha o homem branco,
quais as esperanças que transmite a seus filhos
nas longas noites de inverno,
quais as visões do futuro
que oferece às suas mentes
para que possam formar desejos
para o dia de amanhã ?


Depois que todos nós que somos selvagens
tivermos partido,
e as nossas lembranças
não passarem da sombra
de uma nuvem a pairar acima das pradarias,
a alma do nosso povo
continuará vivendo nestas florestas e praias,
porque nós as amamos
como ama um recém-nascido
o bater do coração de sua mãe.



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(*) Poema desentranhado da carta que o cacique
índio Seattle, da tribo Duwamish,
do Estado de Washington, escreveu ao presidente
Franklin Pierce, dos Estados Unidos, em 1855,
depois do Governo ter dado a entender
que desejava adquirir o território da tribo.



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