quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CORAÇÃO PORTÁTIL : "Sonhos"





"O que você deseja ver nos seus sonhos ?"
                               (LÚCIA MENEZES)



     Minha amiga ficou curiosa quando escrevi num email : "gosto de sonhar / porque eu vejo" (Um cego, de Olinda). Ela me enviou logo a pergunta em epígrafe.  A resposta exige o exercício da lembrança sobre a gênese de um poemeto intitulado "Sonhos", publicado no meu ebook CORAÇÃO PORTÁTIL (Emooby Pubooteca, Portugal, 2010). 

     Eu morava no Jardim Atlântico, bairro de Olinda, e sempre que estava no Recife ia até o ponto do ônibus Casa Caiada, na Dantas Barreto, centro da cidade, para voltar para casa. Certo final de tarde a conversa de uma mulher, na fila do ônibus, à minha frente, me chamou a atenção : ela falou qualquer coisa com outra pessoa sobre São Paulo e iniciamos uma conversa cordial. Em seguida nos sentamos juntos, no ônibus, de volta a Olinda.  Ela também morava no Jardim Atlântico e desceria umas três paradas depois que eu descesse (ao lado do Colégio Carneiro Leão).  No caminho, conversamos um pouco sobre Olinda misturada com São Paulo, onde moramos em tempos distintos e algo distantes, ela disse que gostaria de voltar a viver lá mas que não podia por causa do seu compromisso com o pai.  Nesse ponto a conversa ficou meio dolorosa, pois ela contou logo o motivo do compromisso com o pai, filha única que não podia se afastar dele, mesmo comprometida com o marido e dois filhos.  É que o seu pai havia ficado cego há alguns anos.  A cegueira progressiva, lenta, gradual, e já então total, exigia que ela se dedicasse a ele de forma integral.  Sensibilizada, e sem tristeza, ela lembrou uma frase dele, certa noite, quando ia dormir : "Gosto de sonhar porque eu vejo."

     Quando desci do ônibus a frase do pai dela ficou comigo, me seguiu para casa, encravada na minha memória. Não lembro o seu nome,  não a vi mais (e eu queria lhe mostrar  o poemeto que escrevi, ainda morando no Jardim Atlântico,  motivado pela frase iluminada do seu pai).  Este é o poemeto : 


SONHOS


gosto de sonhar
porque eu vejo
muito além do que os olhos vêem.
gosto de sonhar
porque o corpo
vive além da sua carne.
gosto de sonhar
porque a vida
supera o tempo e a morte. 




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CORAÇÃO PORTÁTIL (poesia),
de Juareiz Correya 
- Emooby Pubooteca 

sábado, 25 de agosto de 2012

A LONGA E SINUOSA ESTRADA : Uma novela dos anos 70





     Estou reescrevendo a minha novela inédita A LONGA E SINUOSA ESTRADA (perdi os originais, datilografados na década de 80 do século passado, em mudança de escritório, há poucos anos, entre Palmares e Olinda).  Coisas da vida. Trata-se de um relato nu e cru de uma viagem que realizei, em 1972, a pé, de carona, de trem, ônibus, de São Paulo a Pernambuco. 

     A viagem é mesmo iniciada no Rio de Janeiro, quando atravessei, a pé, no meio de uma noite, a Avenida Brasil.  Andei por cidades do Espírito Santo, Minas, Bahia... Foram mais de 30 dias na estrada, encontrando amigos ocasionais, mulheres livres, drogas, doidos com juízo, cadeia, pequenos e grandes gestos humanos.  Uma viagem de pé no chão que me fez, com certeza, um homem melhor. 

     Reescrevo a novela, história curta que não chega a ser romance, de assumida natureza autobiográfica, e reencontro com alegria paisagens passagens e criaturas que estão  ainda muito vivas na minha memória.  É uma sorte indimensionável. Tudo retorna com a força criadora da mente e do coração, e é como se eu estivesse na estrada de novo, 40 anos depois de viver torto pelas linhas certas da história que Deus me deu. (Juareiz Correya)
 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Escritor







"O homem que lê vive muitas vidas.
O homem que não lê vive uma só." 
                   (GEORGE MARTIN,
                     escritor / Estados Unidos)



O homem que escreve 
renasce todos os dias.
Não vive só
mesmo na mais completa solidão.
E não morre
se deixar de respirar.
Suas palavras lidas 
e pronunciadas a qualquer tempo
pulsam de novo o seu sangue 
e animam o seu terreno coração.  



Juareiz Correya 
(Recife, 22/08/2012)
 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

RUA 7 RECIFE TERRA




para o livreiro e editor 
Tarcísio Pereira.



o que é uma rua
sem um poeta
para vivê-la ?
uma cidade
sem um poeta
para habitá-la ?
o mundo inteiro
o que é
sem um poeta
para iluminá-lo
com as suas palavras
descobertas
e inventadas ?



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Transcrito do ebook CORAÇÃO PORTÁTIL (poesia)
de Juareiz Correya - Emooby Pubooteca, Portugal, 2011.
- http://www.emooby.com/pt/books/view/5


domingo, 5 de agosto de 2012

A CLARA HISTÓRIA DE PRETA (Ficção política de verdade)




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      (...) Isso decidido, todos sabiam o que fazer. Preta, na hora e sempre, era pra falar, aparecer no momento certo e preciso. O  resto, e o destino de tudo, era, pensassem bem, com o pessoal das comissões.  A batalha ia começar e ser sempre. Se Preta não ganhasse não valia. 

     O "partido pretista" entrou em ação.

     Na terça-feira, dia do comício da Vila da Cohab, no Bairro Modelo, Jamilton e Goia passaram a manhã inteira na Praça da Luz, quartel-general do partido pretista, pintando faixas, bandeirinhas, bandeirolas, bandeiras e bandeirões, folhas de papel riscadas com o número de preta - 414  - ajudsdos por alguns garotos das ruas vizinhas, empolgados e metidos nos preparativos da campanha. A partir das duas horas da tarde a kombi arranjada por Ênio, com o serviço de som montado por Eduardo Priquitinha, passou a circular pelas ruas da cidade, com a locução vibrante de Fernando Pinrra :

     "Hoje, mais uma vez, vamos ouvir a palavra corajosa, sem ódio e sem medo, do candidato a vereador que já é uma sensação na cidade : Amaro Pedrosa de Melo, Preta ! O popularíssimo Preta estará falando mais uma vez toda a verdade, defendo o povo, combatendo a corrupção e o abandono da nossa cidade ! Sem ódio e sem medo, Preta vai falar hoje, na Vila da Cohab, a partir das 8 horas da noite.  Hoje, mais um sensacional comício de Preta, Preta, Preta ! o candidato do povo que diz a verdade, na campanha do tostão contra o milhão ! A situação é preta, vote sem medo de errar : vote em Amaro Pedrosa de Melo, o popularíssimo Preta ! Vote no número 414 - o número mais doce da cidade !"

     Depois vinha o som dos Novos Baianos, sacado para realçar ainda mais a qualidade de comunicação dos pretistas :



"Preta, preta, pretinha,
Preta, preta, pretinha..."


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Transcrito da novela A CLARA HISTÓRIA DE PRETA
(Ficção política de verdade),
de Juareiz Correya 
- Edições Pirata, Recife, PE, 1982



quinta-feira, 2 de agosto de 2012

PEQUENAS HISTÓRIAS REAIS : "Deus é um cara muito doido"





     Nos anos 70 do século passado, de passagem pelo Rio de Janeiro, de onde pretendia viajar a pé pelas estradas, sem destino, passei dois dias na casa de Mário Afonso, um amigo que residia no bairro do Botafogo. Amizade recente, nascida por correspondência quando, de São Paulo, escrevi para a editora onde ele trabalhava.

     Na primeira noite, em companhia de um tio dele, sujeito muito espirituoso, ficamos por algum tempo em uma praça  do bairro conversando sobre vários assuntos. E contamos histórias, anedotas... O tio de Mário se saiu com esta reflexão :

     - Eu acho que Deus é um cara muito doido.  Vejam só : Ele fez a gente com dez dedos (e balançou os dedos das duas mãos, como uns apêndices prontos para cair) e só uma piroca !...



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Do livro inédito PEQUENAS HISTÓRIAS REAIS