quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

PEQUENAS HISTÓRIAS DE ATLÂNTICA : "A GERAÇÃO DO SANGUE" (primeira parte)






     Eles não sabiam ao certo onde moravam. Uns diziam que aquele sítio era de Pernambuco, outros que o lugar já pertencia a Alagoas.  Mas não sabiam direito o que era, onde viviam, alguém chegou a falar até em Dom Pedro Segundo, divisão de terras do Império, uma história de propriedades de famílias antigas, e que tinha uns senhores ali pela vizinhança com maior quantidade de terra do que eles procurando ser donos de mais terras.  Até gente que matava e morria por causa disso. 

     O pai e a mãe de José Genésio não conheciam direito os seus próprios nomes e o filho ainda não era registrado.  Viviam naquele pedaço de terra do jeito que dava para viver.  Uma vez por mês, o pai de José Genésio, montado em um burro com dois caçuás cheios de frutas, macaxeira, inhame, batata-doce, fruta-pão, ia para a feirinha do Engenho Bom Destino.  Às vezes levava também algumas galinhas, com os pés amarrados em embiras e presas por um trançado por trás da sela do animal.  No domingo de Bom Destino ele trocava as galinhas no barracão por algumas mercadorias; e, vendia o que levava nos caçuás, no largo pátio à frente do barracão; também aproveitava para trocar com outros feirantes o resultado do que plantava no seu sítio...  O barracão de seo Neco, com o largo pátio onde ocorria a feirinha do Engenho, ficava à margem da estrada de terra que se estirava em léguas até um lugar que chamavam de cidade : era Trombetas.  Ouvia falar, às vezes até pronunciava o nome, mas nunca tinha visto Trombetas. 


    
     José Genésio e o pai voltavam do riacho com alguns peixes e correram logo ao encontro da cachorra que ia chegando na frente da casa com uma caça presa nos dentes.  José Genésio pensou que era uma cachorrinha nascida no mato.  Quando o seu pai pegou o animalzinho dos dentes da cachorra, eles tiveram uma surpresa, um quase susto.  Era uma menininha, o corpinho nu sujo de terra e sangue, se debatendo nas mãos do pai de José Genésio como quem não conseguia respirar.  Ele limpou logo a menininha com a camisa rala que usava e gritou para que a mulher saísse de casa, recebesse a menininha e cuidasse dela.  A mãe quase viu a mesma cena do nascimento de José Genésio, ali no sítio, à beira do riacho, quando ela pariu o menino de cócoras, cortou o cordão umbelical com os próprios dentes e chamou o pai dele. 
     Assim que pôde chorar a menininha chorou.  Mas o leite providencial das duas cabras que criavam para o sustento deles e de José Genésio, já fervido e esfriado na beira do fogão, fez a menininha dormir bem e só acordar no começo da noite para beber mais o seu leite. 
     José Genésio, com os seus 5 anos de idade, ajudava a mãe, em casa, a cuidar da menininha, com pequenos serviços. A menininha cresceu forte, saudável, e ficou quase do tamanho de José Genésio. 

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Primeira parte do conto "A Geração do Sangue",
 do livro inédito PEQUENAS HISTÓRIAS DE ATLÂNTICA,
de Juareiz Correya.


 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A HORA DA VIDA





O MUNDO NUNCA SE ACABA PARA QUEM AMA
E JAMAIS PARA QUEM ANDA 
COM O CORAÇÃO NAS MÃOS 
PARA DOAR AO CORAÇÃO AMADO.
 
 
TODAS AS CIVILIZAÇÕES PROFECIAS
FADOS FATALIDADES DESGRAÇAS TRAGÉDIAS 
SÃO DESMENTIDAS AO AMANHECER DO DIA 
DO ENCONTRO AMOROSO 
DE CADA HOMEM COM A SUA MULHER.
 
 
E O QUE SERIA A HORA DE LAMENTAR E MORRER 
É A HORA DA VIDA MAIS VIVA RENASCER. 
 
 
 
JUAREIZ CORREYA
(Recife, 21 / dezembro / 2012)
 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

NA ESTRADA, DEPOIS DO PRIMEIRO LIVRO PUBLICADO





     Programei, com a diretora e amiga Jessiva Sabino de Oliveira, um lançamento, do meu primeiro livro publicado, na Biblioteca Pública Fenelon Barreto, de Palmares, minha cidade natal, bem nos moldes de lançamento de livro em uma cidade do interior : convite impresso e coquetel (da Prefeitura), discursos de personalidades locais...   Isto aconteceu no início do ano de 1972, me mandei da cidade algumas semanas depois, de volta a São Paulo, e, da capital paulista, logo em seguida, ainda desempregado, resolvi cair na estrada em uma viagem sem destino.  A viagem durou quase 40 dias, feita a pé, de carona, de trem, de ônibus, na longa e sinuosa estrada BR-101 e seus caminhos pelo Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia... A experiência, que foi humanamente enriquecedora, está sendo narrada em uma novela autobiográfica que reescrevo atualmente (perdi a primeira versão datilografada) com o título A LONGA E SINUOSA ESTRADA ( Sim, é isto : o título é inspirado em uma canção dos Beatles)

     Então, ainda no final de 1972, cheguei novamente a Palmares, concluindo essa viagem que eu pensava sem destino.  E passei os meses iniciais de 1973, na cidade, como uma figura meio marginalizada, meio "hippie", e até sendo considerado por uma linguinhas maldosas, por causa do meu jeito despojado, de cabelos e barba grandes, sem cuidado, do meu isolamento e distanciamento de todos, considerado e tratado como "doido".  (Isto me inspirou, anos depois, o título do meu cordel urbano "Um doido e a maldição da lucidez"...)  E eu estava, na verdade, me descobrindo como jamais imaginaria, escrevendo poemas livres e soltos, de linguagem sem rebuscamento, nua e crua, cada vez mais consciente do que fazia e dedicado, de corpo e alma, à Poesia. 


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ROBERTO MENEZES : "POETAS DOS PALMARES" EM VÍDEO (NE-TV)






     Sobre a reportagem em vídeo, exibida há alguns anos pela Rede Globo Nordeste, realizada pelo jornalista pernambucano Francisco José, com relevo para a terceira edição da antologia POETAS DOS PALMARES, publicação da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho / Prefeitura dos Palmares, em 2002, recebi  do jornalista e escritor Roberto Menezes (Cabo de Santo Agostinho, PE) esta mensagem, opinião respeitável que compartilho com os amigos e amigas deste blog :

     "Que belo trabalho, o seu, poeta...  Deu para sentir a força dessa poesia e o importante trabalho que você sempre desenvolveu para que surjam novos poetas pernambucanos. Principalmente em lugares esquecidos, chamados de interior.  É com grande alegria que te vejo de novo como meu amigo, agora virtual.  Receba o meu abraço e admiração por tudo que você é e faz.  Do amigo de tantos anos, de livros sete e mustangs..." - ROBERTO MENEZES.  

   O vídeo-reportagem do jornal NE-TV, da Rede Globo Nordeste, sobre a antologia POETAS DOS PALMARES,  pode ser acessado neste canal do YouTube :
   http://www.youtube.com/user/juacorreya