domingo, 22 de março de 2015

"PEQUENAS HISTÓRIAS PEQUENAS" : O ANALFABETO E A BUROCRACIA






     O ofício - na verdade, um bilhete garranchado de 5 linhas quase indecifráveis -, assim que chegou ao birou de MM de Melo, secretário de cultura da cidade, foi despachado, para providências do Departamento de Praças e Jardins.  

     Quase 3 meses depois, o bilhete de Amaro do Coco, transformado em um documento  com mais 7 folhas de comunicações digitadas e carimbadas e assinadas por competentes funcionários de diversos setores da Prefeitura, voltou ao birou de MM de Melo.  Tinha tudo quanto era autorização, menos providência.  O secretário MM de Melo devia assinar aquele protocolo de novo para que Amaro do Coco pudesse instalar sua barraca na Praça do Largo da Paz, no bairro de Afogados.  

     MM de Melo não escondeu a indignação com uma sonora "que merda é essa ?!!!" diante daquela papelada . Uma "papelada" da Prefeitura, reconhecia.  Pediu um carro oficial e foi na  mesma hora à Praça do Largo  da Paz para dar, pessoalmente, providência ao pedido do vendedor...

    Na Praça do Largo da Paz já havia uma barraca de cocos e o secretário de cultura foi diretamente para lá, pediu um coco, foi bem servido, bebeu uns goles, puxou conversa.  

     Era a barraca de Amaro do Coco, que atendia a um e a outro com uma desenvoltura de quem parecia até ser dono da Praça.

     O secretário de cultura  perguntou ao vendedor se era ele quem tinha enviado um pedido para a Prefeitura do Recife para instalar aquela barraca.  Amaro do Coco, meio sorridente, disse que sim, e acrescentou logo : estava ali desde o dia em que um amigo preparou o pedido e colocou no Correio para a Prefeitura.  Sabia que a Prefeitura ia demorar...  


     O secretário de cultura MM de Melo voltou com o seu inútil documento debaixo do braço. Não sabia ainda se ia arquivá-lo ou jogá-lo no lixo.  



JUAREIZ CORREYA
( Conto do ebook inédito 
"Pequenas Histórias Pequenas")  

quarta-feira, 18 de março de 2015

PARA OS POETAS DO RECIFE




Dedicado às vidas  
de Marconi Notaro e Marciano Lírio 



"O Recife tem mais poetas
 do que postes pra cachorro mijar", 
poetizava Marconi Notaro, 
como se a mesa do bar 
fosse uma cátedra.   
O poeta escreveu pouco 
sobre a nossa república atlântica tupi-guarani
- mais poética que filosófica  -, 
que cantamos sem Música 
e pensamos sem Grécias
e estudos metidos a grandezas sem Ser.   
Em sua companhia, eu e Marciano Lírio 
e Lea Tereza Lopes e Luíza Russo e Sônia Montenegro 
bebemos mais do que comemos  
e instituímos a Liberdade  
nas mesas do Casarão 7 do Mustang do Savoy 
de qualquer bar, à luz do dia,  
como se fosse a hora  
de invadir a Cidade  
e salvá-la do Medo e da Decadência  
que a Ditadura Militar estendia sobre o País  
como uma noite de terror sem fim.   
A Poesia nos irmanava 
e alegrava os nossos corações 
repartidos em versos 
de guardanapos papéis rasgados 
cópias xerográficas panfletos folhetos 
que serviam para elevar as nossas vozes  
como se tivéssemos platéia 
uma legião de seguidores 
palcos e teatros de cantores de qualquer coisa  
e de dolarizados cachês.    
A Cidade era pobre de jornais e revistas 
e não tinha espaço nenhum 
para quem escrevia e resistia desarmado  
contra a Opressão fardada dos dias.   


Vivíamos como o País vivia  
- sem Ordem e sem Progresso  - 
e embora expulsassem os poetas 
e os que acreditavam na Poesia 
em toda a República sem Democracia e sem Povo,  
resistíamos à Morte 
da nossa geração silenciada  
e os nossos versos inúteis e perdidos  
proclamavam o nosso Direito à Vida.     




(Recife / Boa Vista, 
amanhecer do dia 18 de março/2015)