segunda-feira, 18 de outubro de 2010

GRITO DE AMOR PELO RECIFE (desentranhado da crônica de Paulo Cavalcanti)

Os muros do Recife
estão cheios desta frase :
"De quem é a culpa ?"

Isto é o Recife de hoje,
cidade de um milhão e meio de habitantes,
metade rico, metade pobre.
Metade que não dorme direito :
tem medo da outra metade que passa fome.
A gente em casa
com as portas e janelas gradeadas.
E os ladrões por fora das grades.

De quem é a culpa ?,
perguntam os muros da Cidade.
A culpa é de todos nós, não culpem o Recife.
Quem polui os rios da Cidade ?
Quem suja e infecta suas ruas e avenidas ?
Quem envenena os peixes os caranguejos
do Capibaribe e do Beberibe ?
Quem aterra os leitos dos cursos d'água,
provocando as cheias das invernadas ?
Todo mundo chora e protesta
contra a fúria das águas em maré alta,
dizia Brecht.
E o poeta alemão respondia :
"Ninguém protesta diante da fúria
dos homens contra os rios,
roubando-lhes o direito de correr,
mansos e pacíficos."

Todos nós devemos um mea culpa ao Recife,
belo de nascença.
Nós, homens e mulheres deste século,
tornamos o Recife triste e feio.
O Recife poético e heróico,
dos versos de Carlos Pena Filho,
Gilberto Amado e Austro Costa,
hoje tem medo de suas crianças.
Nós, homens e mulheres,
na pequenez dos nossos gestos
e na imprudência das nossas ações,
vivemos a ofender e humilhar o Recife,
colocando o seu nome
- como um criminoso -
nas manchetes dos jornais do mundo.

A culpa é nossa,
respondo aos muros da Cidade.
O Recife não mudou.
Mudaram os homens, mudamos nós.
Quando os grupos de extermínio
matam três crianças por dia no Recife
morremos todos nós.
"Por quem os sinos dobram ?",
indagava o escritor Hemingway.
Ele mesmo respondia :
"A morte de qualquer homem me diminui
porque sou parte do gênero humano.
Não me perguntes por quem os sinos dobram.
Eles dobram por ti."


Juareiz Correya


Recife, Santo Amaro, 10/10/2010.

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Poema desentranhado da crônica
"Grito de Amor pelo Recife", de Paulo Cavalcanti,
publicada no Diário de Pernambuco em outubro de 1991.

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