sábado, 26 de fevereiro de 2011

SOBREVIVENDO NESTE SÉCULO 21 (4)

A "Enfermaria 10" do HOSPITAL DE ÁVILA tinha apenas três leitos : ocupei o leito C e os outros dois permaneceram vazios até a noite, quando chegou um acidentado de moto para o leito A. Ele estava completamente imobilizado. Do meu leito, na outra extremidade da sala, não pude ver o seu rosto durante 3 dias. Na manhã do dia seguinte chegou um outro acidentado de moto que ocupou o leito B, no meio da sala. Com esses acidentados a "Enfermaria 10" me pareceu transformar-se em um circo...
Cada paciente, cada enfermeira e cada parente ou visitante dos acidentados era um número à parte : a família do rapazote acidentado do leito B dava a impressão que o exibia, como um troféu. A mãe dele, Vânia, tinha satisfação de mostrá-lo, mesmo sem saber direito como ele estava, e se precisava dormir, repousar mais. Chegavam parentes e conhecidos a toda hora - parecia que o morro de Casa Amarela tinha resolvido fazer procissão até o hospital-, e a mãe do acidentado não queria saber se ele estava acordado ou dormindo... O filho dela teve gente a visitá-lo até meia-noite do primeiro dia do seu internamento na "Enfermaria 10". Dormi convencido de que aquilo era um circo mesmo.
O rapazote do leito B se recuperou logo, era bem jovem e forte, e teve sorte na hora do acidente : um ferimento na cabeça e uns arranhões na perna esquerda, com algum problema no pé. Rápido se recuperou e foi embora três dias depois, na terça-feira à tarde, quando fui encaminhado para a operação do catéter no rim direito.
As enfermeiras eram figuras à parte, bem distintas, e que chegavam à "Enfermaria 10", regularmente, trazendo alegria (como Cris, que era inclusive exemplo de mulher batalhadora, construindo, como uma pedreira, a própria casa, sempre otimista para todos, pacientes e familiares), algum bafafá, conversas intermináveis (a exemplo de Fanny, a motoqueira, misturando as histórias das famílias com as nossas quase imperceptíveis histórias), e paciência e doçura (a figura delicada de Ellen, que me fez lembrar a Ellen que conheci,na Emergência do Oswaldo Cruz, quando enfartei), e outras enfermeiras, sobretudo as duas mais jovens, pequenas e silenciosas, que retiravam o meu sangue para exames laboratoriais com uma precisão e uma pontualidade inalterável tão logo amanheciam os dias.


Saí da "Enfermaria 10" direto para a sala de operação localizada em um andar superior. À entrada, o urologista que ia me operar falou comigo, me animando :
"Vamos cuidar de você. Vai dar tudo certo."
Um enfermeiro, a anestesista e uma instrumentadora pediram que mexesse o corpo, deslizando mais para baixo, e abrisse as pernas. Foi só o que eu vi : as pernas bem abertas, como uma mulher na hora do parto. Ouvi ainda duas ou três falas rápidas, quase imperceptíveis, ao redor do leito. A anestesia me apagou.


Abri os olhos à porta da sala de operação. Márcia surgiu ao lado da maca, vi rapidamente meu amigo Valter Portela, meio alegre e brincalhão, e fui levado com destino direto para a "Enfermaria 10", onde me acomodaram novamente no leito C. Estava desperto : lá estavam Márcia, sem a aflição de antes, os pacientes conhecidos da "Enfermaria 10" me saudaram com uma alegria animadora, também assim fizeram duas enfermeiras, o amigo Valter e sua companheira. Valter adiantou : "Já posso falar em Palmares que você ganhou mais uma !" Segredei a ele : "Não diga nada, é melhor. Prefiro que ninguém saiba o que estou passando." Valter entendeu logo. Afirmou que não contaria nada na cidade.

Um comentário:

  1. Juareiz,

    Que bom que estás de volta.
    Estava meio angustiada com sua ausência.
    Como bom virginiano, você vai superar mais esta batalha,
    como já superou tantas outras.
    Se eu estivesse em Recife, estaria aí fazendo uma visita. Porém, numa oportunidade qualquer da vida poderemos novamente romar um vinho juntos... e Ozi que não bebe, só do lado conversando.
    Beijos e muita paz.
    Cuide-se bem.

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