quarta-feira, 18 de março de 2015

PARA OS POETAS DO RECIFE




Dedicado às vidas  
de Marconi Notaro e Marciano Lírio 



"O Recife tem mais poetas
 do que postes pra cachorro mijar", 
poetizava Marconi Notaro, 
como se a mesa do bar 
fosse uma cátedra.   
O poeta escreveu pouco 
sobre a nossa república atlântica tupi-guarani
- mais poética que filosófica  -, 
que cantamos sem Música 
e pensamos sem Grécias
e estudos metidos a grandezas sem Ser.   
Em sua companhia, eu e Marciano Lírio 
e Lea Tereza Lopes e Luíza Russo e Sônia Montenegro 
bebemos mais do que comemos  
e instituímos a Liberdade  
nas mesas do Casarão 7 do Mustang do Savoy 
de qualquer bar, à luz do dia,  
como se fosse a hora  
de invadir a Cidade  
e salvá-la do Medo e da Decadência  
que a Ditadura Militar estendia sobre o País  
como uma noite de terror sem fim.   
A Poesia nos irmanava 
e alegrava os nossos corações 
repartidos em versos 
de guardanapos papéis rasgados 
cópias xerográficas panfletos folhetos 
que serviam para elevar as nossas vozes  
como se tivéssemos platéia 
uma legião de seguidores 
palcos e teatros de cantores de qualquer coisa  
e de dolarizados cachês.    
A Cidade era pobre de jornais e revistas 
e não tinha espaço nenhum 
para quem escrevia e resistia desarmado  
contra a Opressão fardada dos dias.   


Vivíamos como o País vivia  
- sem Ordem e sem Progresso  - 
e embora expulsassem os poetas 
e os que acreditavam na Poesia 
em toda a República sem Democracia e sem Povo,  
resistíamos à Morte 
da nossa geração silenciada  
e os nossos versos inúteis e perdidos  
proclamavam o nosso Direito à Vida.     




(Recife / Boa Vista, 
amanhecer do dia 18 de março/2015)


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