segunda-feira, 14 de março de 2011

SOBREVIVENDO NESTE SÉCULO 21 (5) : O ÚLTIMO ANO DA DÉCADA

Urina sangue urina urina sangue.
Pensei que ia me acabar em urina e sangue.


O paciente do leito A despertou mas ainda ficou um pouco isolado, mesmo cercado com o extremo cuidado dos parentes : a mãe, a mulher, as irmãs. O mundo girava em torno do leito dele. Em torno dele. Depois de despertar melhor, se animou mais e se comunicou comigo. Se chamava Marcos Maia e a nossa comunicação evoluiu como eu nunca imaginaria : se proclamou meu amigo, os seus parentes passaram a atentar para a minha presença, manifestando todos interesse por mim e por Márcia (com quem já dialogavam um pouco antes como velhos conhecidos). Marcos demonstrou tanto o seu interesse pela amizade comigo que, ao saber que eu escrevia poesia, tinha publicado livros, essas coisas, fez logo (de repente, pura criação oral) um poemeto de viva saudação :

"Juarez entre os poetas
Um homem diferenciado de ser
Místico em suas palavras
Mas meigo em seu viver !"




Visita dos meus filhos : Mariama menos apreensiva, contando a última aventura de Flora, a sua formatura do ABC, José Terra mais prestativo e confiante (me trouxe dinheiro, documentos da CEPE e livros - um que Leda Alves me mandou, com cartão/mensagem de Natal, e livros que eu pedi que pudessem me ajudar na solidão e na "prisão" : um livro de poesia de Bruna Lombardi, que estava no apartamento dele, e CONFESSO QUE VIVI, as memórias de Neruda, volume emprestado da Biblioteca Pública Estadual), e João Guarani sempre com alguma história engraçada e sobre futebol e o Náutico da sua torcida.


Urina sangue urina sangue.
E água. Muita água.
O mundo não estava se acabando... A água me salvava.


O banheiro era um espaço de visitação constante. E de mais cuidado. Só me senti melhor quando não foi preciso que Márcia se desdobrasse com os seus cuidados e até me banhasse. Quando ela não teve que me ajudar para ir ao banheiro me amparando e não teve de preparar o meu banho e de me banhar, como se eu fosse um inútil ou pudesse me quebrar como uma peça de vidro, senti uma espécie de libertação. E era.


No meio daquele tiroteio, digo, da agitação com cara de espetáculo de graça daquele circo, quer dizer, da roda-viva diária sem fim da Enfermaria 10, como um satélite solto no espaço do universo do HOSPITAL DE ÁVILA com as visitas falas pacientes parentes enfermeiras enfermeiros médicos servidores da cozinha nutrionistas cozinheiras serventes lençóis toalhas papéis no olho do furacão silencioso no redemoinho que não saía do lugar eu mergulhei em leituras necessárias de jornais diários folhas do Recife dos livros que tinha à mão de Bruna Lombardi Pablo Neruda Ascenso Ferreira Manuel Bandeira Revista Continente o presente de Leda da CEPE (a MPB dos compositores pernambucanos biografados por Renato Phaelante) em leituras inevitáveis de jornais televisivos e a cidade dentro da Enfermaria com os seus dramas tragédias e alegrias era Natal havia outro clima no ar de tudo e de todos naqueles dias eu mergulhava em leituras como tábuas de salvação e para além do deserto as leituras me levavam às minhas releituras e à própria escritura (bastava uma esferográfica e uma caderneta) EU ESTAVA VIVO


Até no banheiro, madrugada alta, fugindo da vigilância de Márcia deitada no chão, ao meu lado no leito C, ou dormindo numa cadeira meio sofá, eu procurava escrever, me erguia de repente do leito e anotava versos títulos de poemas e até projetos de livros. Escrever não era apenas uma atividade cerebral, intelectual. Tinha mais do que sangue e urina dentro de mim uma necessidade que se expressava na ironia dos versos sobre o filho adotado por Elton John, que não era pai nem mãe querendo ser "pãe", nos meus poemetos eróticos que eu lembrei para organizar e publicar um folheto intitulado SEXO PORTÁTIL e nos novos poemas que foram surgindo : "Dentro da noite acesa", "Vida sem fim", "Os Burrocratas".


Meus filhos passaram a manhã e a tarde da véspera do Natal comigo, me viram almoçar, comer e beber direito, com gosto, eu estava bem, eles estavam bem (o que era para mim um verdadeiro presente), e se foram depois em paz para os seus mundos.


Pacientes indo embora bons curados novos pacientes chegando e saindo logo Marcos Maia operado e "programando" a alta dele na quinta-feira e a minha alta na sexta-feira mais médicos nefrologistas (dois dias antes a nefrologista Juliana Campos chegou para me adiantar que eu seria liberado na sexta-feira seguinte, estava tudo bem, minha recuperação tinha sido muito boa, os antibióticos agiram de acordo com o que os médicos tinham intentado, faltava só a minha liberdade...)


Sexta-feira, 31 de dezembro :
Era o fim do último dia da década. Não era o meu fim.

Um comentário:

  1. "Mesmo nos tempos de mais grave doença, nunca me tornei doentio."
    Friedrich Nietzsche

    "Como a doença amplia as dimensões internas do homem!"
    Charles Lamb

    ResponderExcluir